Do arquivo · campo 2014

Perguntamos como seria a academia em dez anos

Era 2014. Donos de academia, professores e usuários intensivos no Rio e em São Paulo descreveram a década seguinte do fitness no Brasil. Lendo as transcrições hoje, acertaram notavelmente o mecanismo e erraram de forma consistente quem seria prejudicado.

MétodoEntrevistas em profundidade e grupos
AmostraDonos, professores, usuários intensivos
CampoRio e São Paulo, ago–set 2014
AnonimizadoNomes, cliente e marcas removidos

O cliente fabricava equipamento de academia e queria entender como o mercado brasileiro comprava. Em algum ponto do roteiro havia uma pergunta que acabou sendo a mais interessante do estudo: como vocês acham que serão as academias daqui a dez anos?

Dez anos a partir de 2014 é 2024. Já passamos disso. Então as transcrições viraram algo que um estudo quase nunca chega a ser: um conjunto de previsões datadas com desfecho conhecido.

O que acertaram

Primeiro, que o fitness tinha deixado de ser nicho e virado identidade social. Um professor descreveu isso em 2014 de um jeito que se lê como descrição precisa da década seguinte:

“Agora literalmente virou moda, qualquer esquina você vê alguém com bolsa, garrafa térmica com água, indo para academia. Todo mundo quer ser atleta.”

Professor, 30 e poucos anos, Rio de Janeiro

Segundo, que as telas entrariam na academia e fragmentariam a atenção. Em 2014 os participantes reclamavam que as academias anunciavam wi-fi como comodidade e que as pessoas ficavam em aplicativos sociais entre as séries. Enquadravam isso como perda — a academia como lugar de conhecer gente estava sendo substituída pela academia como lugar de estar sozinho junto.

Terceiro, e com mais precisão, que a máquina absorveria o trabalho do professor. Um usuário intensivo, perguntado sobre o que queria de uma esteira, deu em uma linha o brief de produto dos dez anos seguintes do fitness conectado:

“A esteira tem que ser inteligente, fazer o serviço do personal trainer para a gente. Já tem relógio que faz isso.”

Usuário de academia, 20 e poucos anos, São Paulo

Um dono no mesmo período descreveu sincronização em nuvem entre o painel da esteira, o computador de casa e o smartphone — os mesmos dados de treino disponíveis nos três. Aquilo era especulativo em 2014. Hoje é uma categoria de produto.

Quarto, o modelo low-cost. Os operadores discutiam a divisão entre uma marca premium e uma acessível, e faziam em voz alta a conta de que fração de um salário mensal uma mensalidade poderia tomar. Estavam descrevendo, em 2014, a segmentação que definiria o mercado brasileiro.

O que erraram

O erro consistente foi sobre consequência, e era interessado de um jeito que vale nomear. Os professores previram que equipamento mais inteligente reduziria o número de pessoas trabalhando em academias. Esse é o medo que um profissional tem ao olhar para automação, e é a previsão que mais se repete nas transcrições.

O que parece ter acontecido é mais próximo do oposto do medo: a onda do fitness conectado chegou junto com uma grande expansão de redes low-cost no Brasil e com o crescimento de formatos de estúdio e treino guiado. A tecnologia não esvaziou a sala. Mudou pelo que as pessoas pagavam dentro dela.

Erraram também no tempo, numa direção específica: tudo que previram demorou mais e chegou de forma mais desigual do que esperavam. E ninguém em 2014 mencionou o que de fato interromperia a década do setor — uma pandemia que fechou todas as academias do país.

O que isto não diz

Eram praticantes, não uma amostra representativa, em duas cidades, num único ano. “Acertar” e “errar” aqui são nossa leitura das transcrições contra o que visivelmente aconteceu depois, não um resultado medido — não fizemos estudo de acompanhamento para testar as previsões, e não anexamos números de mercado a estas afirmações porque não temos cifras verificadas para anexar. Trate isto como nota metodológica, não como previsão setorial.

A regra útil

Praticantes são excelentes instrumentos para mecanismo e péssimos instrumentos para consequência. Pergunte a um dono de academia o que vai mudar e ele dirá com precisão, porque manuseia o equipamento, vê as faturas e observa os alunos. Pergunte o que a mudança fará com a própria profissão dele e você recebe a ansiedade dele, bem argumentada.

A versão prática, para quem encomenda esse tipo de estudo: use respondente especialista para mapear o como, e nunca deixe que ele faça a sua previsão. O raciocínio causal dele é o ativo. As conclusões dele carregam a posição dele no mercado.

E o motivo de conseguirmos escrever esta nota é sem glamour: alguém guardou as transcrições. Um acervo qualitativo com datas é a única forma de uma empresa de pesquisa conferir o próprio trabalho.

Saúde, bem-estar e qualidade de vida é uma das categorias em que mais trabalhamos. Se você está planejando campo no Brasil, nós fazemos.

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